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Morre o Ex-prefeito de Taboão Ary Dáu

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O ex-prefeito e ex-vereador de Taboão da Serra, Ary Dáu, morreu na manhã desta segunda-feira, dia 13, aos 80 anos de idade. Dáu foi prefeito do município entre os anos de 1969 e 1973. O enterro aconteceu no fim da tarde no cemitério Memorial Parque Paulista, no município de Embu.

O prefeito Dr. Evilásio Farias (PSB) decretou luto oficial de três dias.

Ary Dáu
Em plenário, o vereador Ary Dáu presidindo a sessão da Câmara, secretariado pelo vereador Arthur Félix. Em segundo plano, a postos, o diretor da secretaria do Legislativo José Sudaia Filho

Saiba mais quem foi Ary Dáu?

Lanterninha que continua a iluminar os caminhos de Taboão da Serra

Ary Dáu, um dos melhores prefeitos que uma cidade já teve, chegou a Taboão quando Taboão ainda não existia, ajudou a construir o progresso e impôs um estilo de administrar que a nossa população aprova quando o vê adotado por algum governante.

Tempo dos pioneiros
Seo Ary, como é chamado, veio para Taboão em 1958 com a esposa dona Therezinha e a primeira filha de dois meses, e foi morar no Jardim Maria Rosa. Enfrentou o tempo dos pioneiros, sem luz, água encanada, gás, asfalto, saneamento básico, condução ou telefone.

Não veio para a cidade atraído pela especulação imobiliária e outras vantagens fáceis como inúmeros de nossos administradores. Veio porque morava numa casa de cômodos separados no Cambuci, o que tornava os afazeres da sua mulher mais difíceis. Em Taboão tinham uma casa espaçosa e única, mais protegida para dona Therezinha e a bebê. Quanto a ser distante, isto sacrificaria apenas o chefe da família que, jovem e bem disposto, aceitou de bom grado a mudança.

É famosa a história de que tinha que ir diariamente até o bairro do Ferreira pegar o ônibus para Pinheiros, ir a pé, na escuridão, na lama quando chovia, na poeira quando estiava, era uma aventura. Então ele tinha a sua fiel lanterninha. “A gente podia esquecer de tomar café, mas da lanterninha nunca”, brinca com a sua risada característica.

Fazia parte da bagagem os palitos de fósforos que acendia para espantar os cachorros que se atravessavam o seu caminho.

Evangélico praticante, exercia a solidariedade em todos os momentos de seu dia. No bairro do Maria Rosa, era o auxiliador dos vizinhos menos favorecidos. Quando comprou seu primeiro carro, então, o “progresso” chegou para a comunidade. Longe de tudo, era no carro do Ary Dáu que confiavam para levar doentes ao pronto-socorro do Hospital das Clínicas, o mais próximo na época. Muita gente nasceu graças a esses gestos de amizade que, desinteressadamente, Ary Dáu fazia .

Edgard Perez, vizinho e contemporâneo, mais tarde vereador por duas vezes, o ajudava nesse esforço assistencial que, quando criaram a Sajamar – Sociedade Amigos do Jardim Maria Rosa – dava todo o sentido ao nome.

Seo Ary e Edgard eram exemplos de homens públicos naqueles tempos. Líderes comunitários porque, além de prestarem auxílio pessoal às pessoas em seus momentos de dificuldades (levar de carro para o hospital, orientar para tirar documentos, acompanhar quando alguém precisava recorrer à polícia etc.), eram homens instruídos que podiam orientar, aconselhar e ajudar a resolver dúvidas do dia-a-dia dos moradores do bairro e da pequena cidade que nascia, gente trabalhadora mas, em geral, iletrada.

Ouvir Edgard Perez discursar na Câmara era construtivo, falava dos principais fatos do Município, se congratulava com quem achava que estava realmente prestando serviços ao bem da população e dava “puxões de orelha” naqueles que não o faziam, não poupando nem seus colegas vereadores. Fazia política com conhecimento de causa, com coragem e franqueza, qualidades essenciais para o exercício do poder. Se destacava como integrante das Comissões Permanentes do Legislativo, especialmente a de Finanças e Orçamentos.

Victor Zachanini, dono da primeira firma de luminosos cadastrada na prefeitura, em funcionamento até hoje, era companheiro de Seo Ary na viagem de ônibus até Pinheiros. Iam conversando, arquitetando melhorias para a vida do bairro e dos seus moradores. Em 58, para o plebiscito da emancipação, Ary o convenceu a transferir seu título para cá e votar no sim. A participação na Sajamar, trouxe Seo Victor para a militância o que o levaria à vereança anos depois. Foi também fundador de dois partidos, o PMDB e o PSB, estes ao lado do grande amigo e fundador de partidos taboanense João Clemente de Oliveira, cuja importância e história ainda esperam para ser contadas.

Política com sinceridade
O trabalho sempre foi um valor de vida do profissional de contabilidade Ary Dáu, não negando a raça de seu pai libanês e sua mãe mineira, gente tradicionalmente laboriosa. Mas a fé também tem o seu papel na personalidade dinâmica deste dedicado munícipe pois o seu slogan preferido, que está na Bíblia mas poderia estar em nossa bandeira, é “Tudo posso Naquele que me fortalece.” (Epístola de Paulo aos Filipenses 4; 13)

Após conseguir várias melhorias para o seu bairro e ter a sincera admiração de toda a comunidade, o município criado, partiu para a vereança. Muito mais para representar e ajudar aqueles que nele confiavam do que para prestígio pessoal.

Na primeira eleição, em 59, não se elegeu, mas na segunda, em 63, sim. E durante todo o seu mandato na Câmara, sempre foi o presidente da mesa, demonstrando sua vocação natural para a liderança.

Um prefeito de tirar o chapéu
Sua primeira candidatura a prefeito foi uma luta renhida, venceu seu oponente Oswaldo Cesário de Oliveira, por apenas 2 votos. Mas começou uma era que até hoje se reflete na vida da cidade.

Incansável, diariamente percorria o município, muitas vezes ele mesmo dirigindo o carro oficial, para falar com as pessoas, ver as necessidades, os movimentos populares, se os funcionários municipais estavam cumprindo direito suas funções.

A figura do prefeito sempre presente fez história. Quando a enchente do Largo do Taboão acontecia, Ary Dáu, chuva ainda caindo, estava lá com homens e máquinas da prefeitura, botes salva-vidas e uma palavra de esperança, zelando pelos moradores. Muitos deles pessoas de destaque como o vereador Arthur Félix que morava na Rua Getúlio Vargas, ponto nevrálgico das cheias.

Constantemente trabalhando
Ternos impecáveis feitos pelo então alfaiate Waldemar Gonçalves, Seo Ary não abria mão da boa aparência que os funcionários e homens públicos devem ter. O traje na prefeitura era terno e gravata e os motoristas, além de terno, usavam quepe.

Era enérgico. Instalou, em gesto polêmico, câmaras na prefeitura para se assegurar de que todos estavam em seus postos, tratando bem a população.

Ia de cabeça erguida ao encontro das autoridades estaduais e, se não era recebido na hora marcada, deixava seu cartão de visitas e ia embora. “O Prefeito de Taboão não pode esperar” era, provavelmente, a mensagem que queria passar.

Foi um construtor, um dos melhores que Taboão já teve. Trouxe eletricidade, água e esgoto para a cidade. Seu braço direito era outro tocador de obras, Antonio Martins Ribeiro, o “Martinzinho” como era conhecido, também pela baixa estatura.

Obras de que se orgulha abrangem a colocação de guias e sarjetas, a construção de abrigos de ônibus e a construção em alvenaria da escadaria do Morro do Cristo. Como se vê nunca esqueceu aqueles que, como ele, amargavam longos trajetos de casa para o trabalho.

Bom gerente, implantou o empenho antecipado de verbas, necessidade legal mas uma mudança traumática nas negociações informais de uma administração em início de vida. Ficou na memória da cidade o dia em que o contador da prefeitura, Sr. Anísio Dias dos Reis, suspendeu todas as contratações e pagamentos para implantar a nova sistemática.

Teve ainda ao seu lado a competência do Dr. Antonio Giovanini, advogado da prefeitura durante décadas. O secretário da prefeitura era Benedito Comino.

A fonte, um símbolo
A fonte luminosa e sonora, outra realização polêmica, se mostrou uma decisão sensata. Um município pequeno e recém-criado precisava de algo mais do que uma das primeiras mulheres prefeitas do Brasil (Dona Laurita) para demonstrar seu valor e se impor no cenário das cidades.

A fonte, com o seu coreto em forma de pérgula (arquitetura moderna no tempo em que o concreto armado permitia aos arquitetos criar pilares arrojados no estilo de Brasília), o busto de D. Pedro, o monumento da Bíblia sobre um tronco de árvore (ainda hoje todos estão lá) e o monumento do Rotary (ele é rotariano de carteirinha), é a marca do espírito empreendedor dos taboanenses, sinal de que nada temos a dever a outras cidades mais antigas da comarca e, porque não dizer, da Região Metropolitana.

Além disso, ela foi inaugurada junto com a rede de água encanada, em 13 de novembro de 1972, diz Ary Dáu, com sua boa memória para datas e números.

Taboão é para ser respeitado
Ary Dáu nunca se intimidou diante de ataques que, sem entrar no mérito das questões, pessoas da própria cidade lançavam contra a Prefeitura, a Câmara ou o município.

Foi assim quando a grande imprensa publicou matérias classificando Taboão como foco de favelas. Seo Ary se manifestou contra porque o que havia eram pequenas casas de alvenaria construídas em lotes vendidos regularmente, portanto muito diferente de sem-tetos morando em taperas de caixotes.

E defendeu sua tese contradizendo inclusive o todo-poderoso O Estado de São Paulo.

Este é um dos fatos que ilustram o ânimo de defender o bom nome da cidade se opondo com veemência a um certo tipo de mentalidade, presente em alas de nossos munícipes até hoje, de maldizer o município, amesquinhando-o. Mas é graças a atitudes como esta que Taboão é considerado hoje uma “esquina privilegiada do país” (palavras do governador Alckmin) e não apenas uma encruzilhada incerta, como gostariam alguns.

Colaboradores e amigos fiéis
Ary Dáu chegou a Taboão com 23 anos, hoje está com 74. Viu o município nascer e trabalhou para o seu progresso. Continua morando na mesma casa que o abrigou quando veio, bom amigo, honesto e compreensivo com as pessoas, é um ponto de referência, um valor moral presente na cidade.

Teve e tem muitos amigos e colaboradores, dos quais faço parte porque foi pelas suas mãos que tive meu primeiro emprego na vida, na Câmara de Taboão, como escriturário, na época em que Seo Ary era vereador e aprendi muito com ele.

E Oswaldo Mandarino, amigo e parceiro de negócios, ainda hoje fiel escudeiro.

José Sudaia Filho do site http://taboaoonline.com.br/AryDau.htm. Texto originalmente escrito para e publicado pela Gazeta do Taboão

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