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Nossa Sociedade: “Não dá para ler e nem ir ao banheiro”

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Ex-morador de rua circula em sua bicicloteca. (Foto: Divulgação)
Ex-morador de rua circula em sua bicicloteca. (Foto: Divulgação)
Antes de entrevistar um ex-morador de rua sobre o projeto que ele idealizou e que está relançando este mês na Praça Pérola Byngton, no centro de São Paulo, não imaginava o quanto coisas simples como ler um livro ou ir ao banheiro pode se tornar complicado para quem está nessa situação.  Durante três anos vivendo a céu aberto, Robson foi frequentador assíduo da biblioteca pública Mario de Andrade. Enfrentava, no entanto, dois problemas para conseguir ler um livro: olhares preconceituosos e burocracia.

Os olhares, conhecemos bem como seres humanos; são aqueles de desprezo que lançamos no momento em que vemos algo que não combina com nossa realidade e parece desfocado.  Esse era o problema menor, porque com preconceito se convive, ignora, aceita ou despreza. A burocracia era mais complicada porque, para alugar livros nas bibliotecas, era preciso comprovar residência e ele não tinha uma. Diante do que não poderia ser mudado, algo foi criado. E assim nasceu o projeto chamado bicicloteca: uma bicicleta transformada em biblioteca móvel que leva livros de graça para moradores de rua em várias praças do centro de São Paulo.

Outro problema enfrentado por Robson na época em que vivia nas ruas era ter um banheiro à disposição.  Ele me exemplificou o episódio no qual uma senhora vendo um morador de rua fazendo xixi nas calçadas, exclamou para ele: – Que coisa nojenta. E eis que Robson responde algo óbvio, mas sobre o qual tenho certeza que não paramos para pensar.

– Minha senhora, já reparou que não existe banheiro público por aí? É noite e os bares estão fechados! .  E assim Robson me fez perceber que se não houver um abrigo por perto ou boteco aberto, não haverá dono de bar que deixe morador de rua usar banheiro do estabelecimento.  Isso quando não cobram a utilização!. Com 11 milhões de habitantes, a cidade tem somente 1.500 banheiros públicos. Eles estão espalhados por ruas, praças, parques e museus, mas muitos deles ainda cobram taxas para poderem ser utilizados.

Entre noites dormidas em albergues onde recebem comida, banho e cama; e dias perambulando pelas cidades, eles vão vivendo, já incorporados pela paisagem urbana. Alguns moram entre drogados ou se tornam um deles; outros arranjam meios de ganhar dinheiro, pedindo esmolas ou fazendo arte. Alguns infelizmente enlouquecem e outros continuam lúcidos. A Lei n° 12.316, aprovada em 2002, que cria a política de atenção à população de rua para o município de São Paulo, parece que não é aplicada. Sem políticas públicas de emprego, para dependentes químicos, contra violência e medidas que tragam direitos e oportunidades para os moradores de rua, não há saída. Continuarão à margem da sociedade, sendo renegados e girando a engrenagem dos que lucram com a miséria.

Por Luisa Pascoareli

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