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ARTIGO: Setembro Amarelo: Uma visão dialética do comportamento

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Por Dijaci Teixeira Correia*

No dia 10 de setembro se comemora o dia mundial de prevenção do suicídio, ainda tendo o mês inteiro dedicado a essa causa. Entretanto é um tema que deve ser levantado ao decorrer de todo o ano e que diversos profissionais da saúde atualmente temem entrar por receio de influenciar ou não saber como abordar tal tema delicado.

Para compreensão do presente artigo olharemos para o suicídio como um comportamento, explicado pelo ponto de vista da terapia comportamental dialética – uma dentre as diversas abordagens baseadas em evidências da psicologia – sendo a abordagem terapêutica criada por Marsha Linehan, com melhor evidência para tratamento de comportamentos suicidas e parassuicidas (automutilação), principalmente um tratamento para transtornos onde a intensidade emocional toma conta do indivíduo o fazendo realizar comportamentos cheio de dor, culpa e por vezes arrependimento. Emoções e sentimentos que são constantemente invalidados por pessoas que não compreendem como as emoções e comportamentos funcionam.

A primeira premissa acerca do comportamento é que, todo comportamento tem sua função, ou seja, simplesmente julgar o comportamento como bom ou ruim para alguém, não ajuda, em muitos casos aumenta a culpa e diminui a vontade de mudar o mesmo, então se um comportamento existe é importante entender o porquê – onde ele quer chegar? Qual a função daquele comportamento? – daí a visão dialética a filosofia onde simplificando, diz que pontos de vistas opostos, podem se complementar e não necessariamente se anular.

Se considerarmos que todo comportamento pode ser um meio de comunicar algo, podemos ver através da ‘’aparente’’ intenção, atos contra a própria vida, muitas vezes se tornam o último recurso de alguém que tentou comunicar diversas vezes que uma mudança era necessária, porém, na tentativa de se expressar, uma pessoa em muitos casos é punida com ‘’você não deveria sentir isso’’, ‘’você tem tudo, não é grato pelo que tem’’, ‘’para de surto’’ ‘’você não pode sentir raiva ou ficar triste com as pessoas’’. Se você não pode falar o que sente sem ser invalidado por outros, vai comunicar com comportamento onde a dor será visível a ponto de externalizar o que outros não podem ver. Uma comunicação que diz ‘’quero morrer’’ mas também diz ‘’não quero morrer, quero ajuda’’, a resposta desses dois opostos que se complementam se dá em uma frase que se torna a base da psicoterapia ‘’quero uma vida que vale a pena ser vivida’’.

Todos estão fazendo o melhor que podem e todos querem ser felizes, essas são outras duas premissas desse modelo psicoterapêutico, esse ato contra si na tentativa de mudar a situação dolorosa e invalidante em que se encontra, acaba por tirar de você a oportunidade de ‘’viver uma vida que vale a pena ser vivida’’ e como Marsha Linehan diz em relação ao suicídio ‘’não há nenhuma evidência de que você será mais feliz’’, aliás existem evidências de que com o tratamento adequado e direcionado, você pode não só entender o que causa grande parte das suas dores e problemas, quanto também desenvolver diversas habilidades para lidar com os problemas que te impedem de viver essa vida que vale a pena.

Aceite suas emoções: Não existem emoções boas ou ruins, elas são respostas fisiológicas que você não controla e cada uma com sua função – não aceitar, não resolverá seu problema, não fará a emoção desaparecer e aumentará a sensação de culpa e vergonha por sentir, piorando o mal-estar -, aceite quem você é hoje e evite viver com julgamentos, eles atrapalham o processo de mudança, se você se julga ou aceita julgamentos de outros como verdades, continuará tendo o mesmo resultado de sempre, tente olhar para o seu comportamento como um efeito dominó da sua história. Se outros te invalidarem, eles têm extrema dificuldade em sentir empatia, tente compreender que as vezes as pessoas não conseguirão compreender a sua dor, porém, não significa que ninguém conseguirá.

Sobre aceitar e ao mesmo tempo mudar, aceitar e concordar são coisas completamente diferentes, aceitar não significa que você concorda ou que algo é bom, significa você olhar para a realidade para como ela está sendo mostrada e isso dará a oportunidade de mudar a realidade, aceitar quem você é hoje significa entender sua história e buscar as mudanças para melhorar seu contexto como um todo de agora em diante.

Caso você ainda acredite que não consegue mudar sua realidade, pensamento dialético lembra? Eu sei que você consegue e nós dois estamos certos, a resposta que complementa esses pontos opostos é que talvez não tenha conseguido até agora com os recursos que tem, mas não significa que nada nunca vai mudar, você pode aprender novas habilidades e técnicas para chegar na vida plena que procura, dê uma chance às pessoas e aos especialistas na área de saúde mental de te ajudarem a alcançar uma vida que vale a pena, porque ela vale.

Outro recurso interessante que você pode usar quando acreditar que não consegue mais e não tema mais opções é o Centro de Valorização da Vida (CVV), que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias, não hesite em aumentar seus recursos para lidar com o sofrimento. Site para contato do CVV: www.cvv.org.br.


REFERÊNCIAS:

ABREU, P. R.; ABREU, J. H. dos S. S. Terapia comportamental dialética: um protocolo comportamental ou cognitivo?. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, [S. l.] ISSN 1982-3541 V. 18, N. 1, pg. 45 – 58, 2016. DOI: 10.31505/rbtcc.v18i1.831. Disponível em: https://rbtcc.com.br/RBTCC/article/view/831. Acesso em: 11 set. 2023.

Marsha Linehan | ¿Qué hacer con un paciente suicida?. [S. I.: s. n.], 2022. 1 vídeo (27 min). Publicado pelo canal Psicólogos tcc. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UNy7ehEUK-c. Acesso em: 11 set. 2023.

SETEMBRO amarelo – mês da prevenção do suicídio. Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, 2019. Disponível em: https://www.tjdft.jus.br/informacoes/programas-projetos-e-acoes/pro-vida/dicas-desaude/pilulas-de-saude/setembro-amarelo-mes-da-prevencao-do-suicidio. Acesso em: 11 set. 2023.


Dijaci Teixeira Correia é psicólogo e pós-graduando em terapia cognitivo-comportamental pela PUC-RS e Psicologia Hospitalar pela FAVENI – CRP: 06/181331

E-mail para contato: dijaciteixeira.psicologo@gmail.com

*O artigo não reflete, obrigatoriamente, a opinião do Taboão em Foco.

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