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O Desafio de Ser Conselheira Tutelar em Taboão da Serra

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Por Renata Ribeiro*

Ser Conselheira Tutelar é, acima de tudo, um compromisso com a proteção integral de crianças e adolescentes. Em Taboão da Serra, com mais de 280 mil habitantes, esse compromisso se torna ainda mais desafiador diante das realidades sociais, da demanda crescente e, principalmente, da falta de compreensão sobre o verdadeiro papel do Conselho Tutelar.

Ser Conselheira Tutelar vai muito além de exercer uma função pública: é assumir um compromisso diário com a infância e a adolescência, enfrentando realidades complexas, muitas vezes dolorosas, que envolvem abandono, negligência, violência, pobreza e graves violações de direitos.

É atuar na linha de frente. É ser chamada a qualquer hora, em qualquer dia da semana, e ter que agir com firmeza, empatia e sabedoria. É acolher uma família desesperada, uma criança em sofrimento, um adolescente desacreditado. É intermediar conflitos familiares, dialogar com escolas, serviços de saúde, o sistema de justiça, a assistência social e, muitas vezes, se deparar com a ausência do Estado onde ele mais deveria estar.

Alguns exemplos de atendimentos do conselho tutelar:

Crianças com suspeita de abuso sexual e negligência grave, tivemos que levar família à delegacia, registrar boletim de ocorrência e conduzir para exame no Hospital Pérola Byington. Intervenções em situação de risco emocional e psicológico, pois identificamos que a família era negligente.

Crianças que sofreram manipulação e ameaça pelo próprio ente familiar, acolhemos os relatos com sensibilidade e encaminhamos para atendimento psicológico e proteção legal. Acionamos o Ministério Público e articulamos este caso com a Coordenadoria da Mulher. Isso demonstra o compromisso em garantir segurança emocional e proteção à criança.

Denúncias de crianças que foram vistas vendendo balas no semáforo, orientamos, criança e a família, analisando o contexto de pobreza extrema da família encaminhamos ao CREAS para acompanhamento. O conselho atuando não só como fiscalizador , mas também de apoio social e rede de proteção.:

No caso da avó que cuidava sozinha das netas cujos pais são dependentes químicos, os conflitos familiares e emocionais, compreendendo tanto a dedicação da avó quanto os impactos sobre a adolescente. Encaminhamos ao CRAS, evidenciando o olhar humanizado diante de famílias sobrecarregadas e encaminhamos ao Psicólogo.

Todos os exemplos de casos que mencionei anteriormente foram situações em que atuei diretamente como conselheira tutelar. No entanto, um caso em especial marcou profundamente minha trajetória.

Recebemos uma denúncia de maus-tratos envolvendo uma criança. Ao chegar à residência para averiguar a situação, me deparei com uma cena que me cortou o coração: a criança apresentava sinais evidentes de desnutrição. Apesar do impacto emocional, sabia que não poderia agir apenas com base na emoção. Respirei fundo e tomei uma decisão responsável — agendei, com urgência, uma consulta com um pediatra para avaliação médica especializada.

Mesmo com o coração apertado, deixei a criança sob os cuidados dos familiares por mais 24 horas, até o atendimento. No dia seguinte, o diagnóstico foi claro: desnutrição severa. A partir dali, não havia mais dúvidas. Acionei a rede de proteção e a criança foi encaminhada para uma instituição de acolhimento, onde teria os cuidados necessários para sua recuperação.

Cerca de um mês depois, retornei à instituição para uma visita. Ao reencontrar aquela criança, confesso que me emocionei profundamente. Ela estava completamente diferente: mais corada, com brilho no olhar, aparentando saúde e vitalidade. Foi nesse momento que compreendi, mais uma vez, o verdadeiro valor do nosso trabalho.Ser conselheira tutelar é, muitas vezes, carregar o peso de decisões difíceis, mas também é ter o privilégio de transformar vidas. Esse caso me mostrou, de forma muito concreta, que nossa atuação pode, sim, salvar uma infância.

O plantão do Conselho Tutelar não tem hora para começar nem para terminar plantão de 24 horas para cada conselheiro, sendo acionado por hospitais, delegacias ou forças policiais às 20h, às 2h ou até às 3h da manhã, sempre que uma criança ou adolescente estiver em situação de risco.

Desafios que marcam a rotina

O cotidiano de um Conselheiro Tutelar exige equilíbrio emocional, conhecimento técnico e sensibilidade social. Os desafios não são apenas profissionais, mas também pessoais. São visitas em comunidades vulneráveis, decisões urgentes sobre acolhimento, escutas delicadas, denúncias anônimas, plantões noturnos e cobranças de diversos lados.

Taboão da Serra conta atualmente com duas sedes do Conselho Tutelar, cada uma responsável por atender uma área ampla e densamente populosa. Ainda assim, muitos moradores desconhecem não apenas a localização dessas sedes, mas, principalmente, o papel do Conselho. Pior ainda: há quem acredite que o Conselho Tutelar existe para punir pais, mães, responsáveis e até mesmo crianças e adolescentes. Esse estigma equivocado dificulta o acesso da população aos serviços e afasta quem mais precisa de acolhimento e orientação.

Além disso, é importante destacar que alguns órgãos da própria rede de atendimento ainda desconhecem o trabalho do conselho Tutelar,essa desinformação revela o quanto ainda é necessário fortalecer o trabalho em rede e capacitar profissionais de outras áreas sobre a atuação do Conselho.

Garantia de direitos, não punição

O Conselho Tutelar não é um órgão de punição. Pelo contrário: ele é um instrumento essencial de garantia de direitos. Criado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Conselho atua sempre que há ameaça ou violação de direitos — seja por negligência, violência, exploração, omissão do poder público ou abandono escolar. Seu papel é proteger e encaminhar, orientar e articular. Não julgar, não condenar.

Em 13 de julho de 2025, o ECA — que instituiu o Conselho Tutelar — completa 35 anos de existência, representando uma revolução legal na forma como o Brasil passou a enxergar e proteger suas crianças e adolescentes. E em Taboão da Serra, essa história ganhou forma em 1992, com a criação do primeiro Conselho Tutelar por meio de Lei Municipal, um passo importante para a efetivação dos direitos infantojuvenis no município.

Uma missão de humanidade

Ser Conselheira Tutelar é abraçar uma das missões mais desafiadoras do Sistema de Garantia de Direitos. É agir quando muitos se omitem. É carregar nos ombros o peso de decisões que podem mudar o rumo de uma vida. É ser ponte entre a dor e a proteção, entre o abandono e o cuidado, entre o risco e a dignidade.

É um trabalho que exige força, sensibilidade, coragem — e, acima de tudo, humanidade.

Por isso, é urgente valorizar o Conselho Tutelar e reconhecer a importância de suas ações para a construção de uma sociedade mais justa e segura para nossas crianças e adolescentes. Quando o Conselho atua, o futuro também é protegido.

*Renata Ribeiro é conselheira tutelar em Taboão da Serra

*O artigo não reflete, obrigatoriamente, a opinião do Taboão em Foco.

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